A verdadeira mudança não está em substituir uma ferramenta por outra, mas em redesenhar a forma como transformamos informação em direção, execução e aprendizado.
Durante muitos anos, boa parte do meu trabalho cabia em uma parede.
Fazíamos workshops, preenchíamos dezenas — às vezes centenas — de post-its e, depois, tentávamos encontrar alguma ordem naquele mosaico. Agrupávamos ideias, identificávamos padrões, cruzávamos percepções e buscávamos as metatendências escondidas entre frases soltas.
Era um processo lento. Mas funcionava.
O post-it não era apenas um pedaço de papel colorido. Era a interface visível do nosso pensamento. Ele permitia registrar uma percepção, movimentá-la, conectá-la a outras e preservar alguma rastreabilidade sobre a origem de cada conclusão.
Com a pandemia, as paredes desapareceram.
Migramos para quadros digitais, como o Miro. Conseguimos reunir grupos a distância, realizar dinâmicas, organizar informações e reproduzir quase tudo o que fazíamos presencialmente.
Ainda assim, algo parecia errado.
Hoje percebo que aquela foi uma migração literal: transportamos a parede para uma tela, mas mantivemos praticamente intacta a lógica de trabalho. Continuávamos coletando fragmentos para, somente depois, dedicar horas à tarefa de agrupá-los, interpretá-los e transformá-los em alguma direção.
Digitalizamos a ferramenta. Não redesenhamos o processo.
Quando a IA deixou de ser apenas mais uma ferramenta
A chegada da inteligência artificial começou a alterar essa dinâmica de maneira mais profunda.
As pesquisas externas ganharam amplitude. Documentos enviados pelos clientes passaram a ser analisados em conjunto. Entrevistas puderam ser transcritas, comparadas e conectadas. Contradições antes dispersas começaram a aparecer com mais clareza.
Os workshops também mudaram.
Em vez de grandes sessões destinadas a produzir dezenas de registros, passamos a conduzir conversas mais guiadas, próximas de entrevistas semiestruturadas. A preocupação deixou de ser preencher a parede e passou a ser formular perguntas capazes de revelar premissas, tensões e relações de causa e efeito.
Durante algum tempo, tentei manter os dois mundos.
Analisávamos as informações com IA, transferíamos os insights para um quadro digital e, então, reorganizávamos tudo para apresentar ao cliente. Rapidamente ficou evidente que estávamos criando uma nova espécie de desperdício: usar uma tecnologia avançada para produzir material que seria novamente convertido para a lógica do post-it.
A mudança se completou quando os insights passaram diretamente da análise para uma narrativa estruturada de decisão.
Foi aí que tive uma sensação incômoda: talvez a inteligência artificial esteja matando o post-it.
O post-it não está sendo substituído. Sua função está desaparecendo.
A adoção de IA já é ampla, mas o redesenho do trabalho ainda é raro. Em uma pesquisa global publicada pela McKinsey em 2025, 78% dos respondentes afirmaram que suas organizações utilizavam IA em pelo menos uma função. Apenas 21%, porém, disseram ter redesenhado fundamentalmente algum fluxo de trabalho. O estudo também encontrou no redesenho dos processos a relação mais forte com o impacto financeiro gerado pela IA.
Essa diferença é importante.
Usar IA para resumir uma entrevista e depois copiar o resumo para um post-it digital é apenas automatizar uma etapa. Redesenhar o trabalho significa questionar por que aquele intermediário ainda existe.
O post-it resolvia três problemas: capturar informações, tornar relações visíveis e ajudar grupos a produzir sentido coletivamente. Hoje, boa parte dessa função pode ser realizada por sistemas que analisam documentos, recuperam evidências, agrupam padrões e preservam a ligação entre uma conclusão e suas fontes.
A unidade básica do trabalho deixa de ser o fragmento de informação.
Passa a ser a hipótese.
Quatro mudanças na forma de pensar estrategicamente
Na prática, tenho observado quatro deslocamentos.
1. Da coleta ampla para a investigação guiada
O objetivo de uma conversa não é mais produzir a maior quantidade possível de registros. É testar hipóteses, identificar divergências e compreender quais informações realmente alteram uma decisão.
2. Do agrupamento visual para a síntese rastreável
A IA consegue comparar entrevistas, documentos, indicadores e pesquisas externas em uma escala difícil de reproduzir manualmente. O papel humano não desaparece: muda da organização dos fragmentos para a avaliação da relevância, da coerência e da causalidade.
3. Do quadro de informações para uma arquitetura de decisão
Um board mostra o que foi dito. Uma boa narrativa estratégica mostra o que aquilo significa, quais escolhas surgem dessa interpretação e quais consequências cada escolha produz.
4. Do acompanhamento periódico para um sistema de aprendizado
Durante a execução, transcrições, decisões, indicadores e impedimentos formam uma memória contínua do plano. Torna-se possível comparar o que se imaginava que aconteceria com o que efetivamente aconteceu — e ajustar não apenas as ações, mas as próprias hipóteses estratégicas.
Essa última mudança talvez seja a mais relevante. A IA não serve somente para acelerar o planejamento. Ela pode conectar diagnóstico, direção, execução e evolução em um mesmo ciclo de aprendizado.
O relatório Work Trend Index de 2026, da Microsoft, chegou a uma conclusão semelhante: o principal desafio já não é a capacidade individual de usar IA, mas a prontidão da organização para absorvê-la. Segundo o estudo, fatores organizacionais como cultura, apoio da liderança e práticas de gestão explicam o dobro do impacto relatado em comparação com o esforço individual isolado.
A ferramenta não substitui o modelo mental
Nada disso significa que a IA pensa estrategicamente sozinha.
Ela trabalha a partir das perguntas que fazemos, dos critérios que fornecemos e das estruturas que usamos para interpretar o mundo. Sem método, pode apenas organizar o irrelevante com enorme eficiência. Sem julgamento, pode produzir relações convincentes, mas equivocadas. Sem clareza sobre o problema, pode acelerar a chegada ao lugar errado.
Pesquisas do MIT vêm mostrando que a IA generativa não altera apenas a velocidade do trabalho, mas também a natureza das tarefas realizadas. Em um estudo com mais de 187 mil desenvolvedores, o uso da tecnologia deslocou tempo de atividades gerenciais para o trabalho principal e aumentou a autonomia individual — ao mesmo tempo que levantou preocupações sobre redução da colaboração e das oportunidades de aprendizagem coletiva.
A ferramenta, portanto, amplia tanto nossas capacidades quanto nossas limitações.
Modelos de divergência e convergência, construção de cenários, design estratégico e pensamento sistêmico continuam relevantes. O que mudou foi o ambiente no qual esses modelos operam.
Durante a época de ouro do design thinking, tornar o pensamento visível era uma conquista. Hoje, o desafio talvez seja outro: tornar o raciocínio verificável, conectado e continuamente atualizável.
O post-it cumpriu brilhantemente sua função histórica. Ele nos ensinou a externalizar ideias, colaborar e encontrar padrões no caos.
Mas talvez tenha chegado o momento de deixar a parede para trás.
A pergunta para quem lidera processos estratégicos não é qual ferramenta digital substituirá o post-it.
É outra: a sua organização está apenas digitalizando a antiga parede ou está redesenhando a maneira como pensa, decide e aprende?





